Sexta-feira, Junho 17, 2005
 
Fim de semestre
O semestre está acabando e começa a surgir um alívio seguido daquela tal náusea. Quando desgrudo os olhos dos livros percebo que estou imerso em areia até o pescoço.

 
...

Essa sua voz desinteressada é como um punhal a me cravar o peito
Esse seu olhar despercebido é uma metralhadora a me crivar de balas
Esse seu afago artificial é um soco a me quebrar os dentes
Essa sua frieza é um rolo compressor a me amassar contra o chão
Esse meu olhar triste é medo de te perder
Segunda-feira, Maio 30, 2005
 
Vida de areia

Qualquer que seja o lugar que eu olhe, há sempre muita areia no que vejo. Em cada cenário do meu cotidiano, em cada coração pelo qual luto, em cada sonho no qual me entrego, não tarda para que em alguns anos, meses ou até segundos a areia invada e o torne velho, feio, inútil. Maldito seja esse pó que me tapa os poros, me dificulta a respiração, me arde os olhos. Pudera eu varrer todos esses pequenos grãos da minha vida, redescobrir as antigas formas dos cenários pelos quais passei inúmeras vezes, devolver a luz que um dia irradiou dos meus sonhos, lavar seu coração e devolvê-lo sua natural cor vermelha.

Quarta-feira, Dezembro 15, 2004
 
O Efeito Borboleta

Eu sou suspeito para redigir uma resenha deste filme porque assuntos pertinentes à teoria do caos e às estranhezas da física quântica me fascinam enormemente. Acontece que acabo de vê-lo e a impressão que tenho é de que nenhum outro filme me deixará tão fascinado quanto este. Talvez por ser uma junção perfeita entre as teorias físicas e o cinema; talvez pela verossimilhança da hipótese de que a realidade, de alguma forma, possa ser moldada e completamente transformada à partir da mente de um homem; talvez pelo fato de que esta verossimilhança me entusiasme.

Nestas férias estou lendo Werther de Goethe mas ainda peguei um Balzac e mais outros dois livros que têm tudo a ver com o assunto: O universo elegante de Brian Greene e Será que Deus joga dados? de Ian Stewart, que tratam da matemática do caos e das teorias físicas modernas, respectivamente.

Quarta-feira, Novembro 03, 2004
 
Xadrez

Tudo marcado, voltei àquele lugar acompanhado de alguns camaradas e munido de um maço de cigarros para não me sentir tão solitário. Já na entrada pensei que logo eu iria me arrepender muito de tudo aquilo. O cenário havia mudado, nada mais. Aquelas pessoas de plástico ainda fervilhavam por toda a parte. Um sentimento constante de estranheza me apossava mas isso não me surpreendeu, fora sempre assim quando eu estava por ali. Procurava sem sucesso não reparar como o mundo era feio sob aqueles olhares, iluminado por aqueles flashes, ao som daqueles ruídos estridentes e enquanto as horas passavam eu olhava incessantemente o relógio, temendo o fracasso iminente. "A galera vai afundar no bala hoje, até distribuíram pirulitos" alguém me disse. E já no final da noite foi que o vi, alguém perfeito para um jogo. E como não tinha percebido antes? Estava sempre ali, sem nenhuma pretensão e toda aquela paranóia não me deixou vê-lo. Fui em sua direção e propus o jogo. Começamos a jogar, eu avançava rápido e parecia claramente que estava ganhando. Então me deparei num xeque. Fiquei assustado e pensei em fugir, mas era inútil. E assim ficou aquele jogo, interminado mas não finalizado. Cada um esperando o momento certo para um xeque-mate.

Sábado, Outubro 23, 2004
 
A pirataria é anticapitalista

A pirataria é uma ameaça real à geração de dinheiro, à lógica capitalista em si e nisso a extrema direita e os grandes donos das grandes indústrias por aí já sabem há muito tempo. Prova disso são as propagandas anti-pirataria veiculadas diariamente nos tele-jornais, nos programas de televisão e rádio de emissoras privadas que geralmente falam mentiras e coisas absurdas sobre o assunto.

A pirataria já contribuiu para um grande prejuízo na indústria fonográfica e agora avança para outros setores como filmes e livros, para o pavor dos donos de estúdios de cinema, donos de editoras, produtores e atores milionários de hollywood e do mundo, mostrando que é perfeitamente possível que as pessoas produzam e consumam sem a mediação do dinheiro. Acho que futuramente esse processo poderá concretizar o ideal humano que surgiu há muito tempo de se suprimir a arte como categoria EXCLUSIVA das classes dominantes, como produto comercializável pelos grandes donos do capital. Melhor que isso: poderá causar sérias crises financeiras globais e abrir caminho para uma nova forma de organização das sociedades humanas.

Para adiantar esse processo podemos contribuir com a democratização da internet, abrir ciber-cafés e centros (anti)culturais em favelas, criar softwares livres de compartilhamento de arquivos, compartilhar arquivos na internet. Ouvi dizer que existe um software livre de compartilhamento de arquivos que utiliza os servidores do kazaa, soulseek, emule e outros entre os mais populares. Assim, você poderá baixar arquivos de usuários que utilizam qualquer um desses softwares e disponibilizar a todos eles também. É um grande passo nesse sentido.

Quinta-feira, Outubro 21, 2004
 
Delicada Relação

Todos os filmes e livros de temática gay/lésbica que eu já vi e li até hoje terminaram em TRAGÉDIAS, CATÁSTROFES, DESGRAÇAS TERRÍVEIS. Este não podia ser diferente e repetiu essa antiga tendência de se estigmatizar os homossexuais como aquelas pessoas que NUNCA se dão bem na vida. Mas, tirando essa falha, é um filme bom, bonito, um drama sem ser melodramático. A cena dos soldados dançando trance foi interessante*. Igualmente interessante é a forma que o filme aborda, bem sutil e superficialmente, a questão do militarismo; das guerras; as decisões que sempre chegam de cima para baixo, tomadas por poucos do alto escalão e em total desprezo aos soldados.

* A música Trance é bem popular em Israel, principalmente em Tel-Aviv de onde vários DJ's, como o bem conhecido Skazi, surgiram.

Quarta-feira, Outubro 13, 2004
 
É possível que a humanidade viva sem religiões?

Não, as religiões são inerentes à humanidade, elas vêm sobretudo do temor à morte e da incapacibilidade humana de se explicar alguns fênomenos, sobretudo a morte. Reprimir esses resultados da criatividade popular é, além de ruim, inútil. É ruim pois não devemos lutar por um pensamento unânime mas diversificado e devemos respeitar a opção de outras pessoas acreditarem em seus Deuses, gnomos e o que for, sem tentar impor o ateísmo como única vertente de pensamento. E é inútil porque em governos tirânicos ditos socialistas, crenças religiosas foram declaradas ilegais, seitas foram perseguidas e reprimidas e depois de décadas, quando esses governos caíram, as pessoas voltaram às suas religiões com a mesma intensidade que outrora. Vide o caso da região dos balcãs que, depois da queda da U.R.S.S., quase que imediatamente pipocou em conflitos religiosos que foram por anos impossibilitados pelo totalitarismo soviético.

Os verdadeiros inimigos dessa história são os mercenários que se aproveitam das crenças populares para se enriquecerem, as instituições religiosas que manipulam pessoas sem instrução para se apoderarem no controle ideológico delas. É perfeitamente possível que as pessoas tenham suas religiões sem que precisem de padres, pastores ou sacerdotes para fazer a mediação com o divino. As chamadas religiões livres cultuam o divino diretamente, sem nenhuma mediação e talvez por isso são chamadas de pagãs e odiadas pelo catolicismo e demais igrejas. Estas seitas são formas sadias de crença popular que têm meu completo apoio e admiração.

Terça-feira, Outubro 12, 2004
 
Eu: um balão

Eu sou um balão numa pista de dança lotada.
Daqueles que alguém lança sobre a multidão pra observar por quanto tempo ele consegue ficar no ar sem cair no chão.
As pessoas me dão tapas, eu fujo.
Caio nas mãos de outras pessoas que me sacodem, me seguram por uns instantes, até me lançarem ao ar novamente num tapa.
E assim vou seguindo, por mais que me dêem golpes eu continuo a cair em mãos desconhecidas e reinicio o processo.
Até que algum sujeito, já no décimo copo de whisky, segura o balão com as duas mãos e o estoura.
Eu sou esse patético balão.
Sonho com o dia em que serei inflado com algum gás de densidade menor que o ar.

Domingo, Outubro 10, 2004
 
Arquitetura radical

Aí vai uma palinha do que eu estou escrevendo atualmente. Se alguém, ALGUMA CERTA JANETE (piada interna) ou quem quer que seja, se interessar em ver tudo o que eu já escrevi, acrescentar algumas linhas, alguns pontos, algumas idéias, me mande um email: crimideia@click21.com.br

As teses abaixo foram escritas com a intenção de se idealizar uma metrópole onde a arquitetura seria desenvolvida por e para todos os seus habitantes; onde o bem estar social encontraria o seu ápice; onde a poluição sonora, do ar, dos rios, dos lagos seria praticamente nula; onde toda a sua funcionalidade, desde o sistema de transporte ao sistema de esgoto, visaria o bem estar geral. Todas essas teses só serão efetivamente postas em vigor numa metrópole onde o estado e o capital forem abolidos em todos os seus setores, mesmo sabendo que algumas idéias aqui propostas possam ser futuramente cooptadas por algum governo dito democrático, deturpadas e postas em prática.


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